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Ponte Preta: Desabafo de Elvis expõe desorganização e dificuldades em 2026
Por Redação FutPonte em 16/01/2026 10:13
A euforia pela conquista da Série C em outubro de 2025, que marcou um ano de superação para a Ponte Preta, deu lugar a um cenário de profunda instabilidade. O que se seguiu à celebração no Moisés Lucarelli foi a explicitação de problemas crônicos nos bastidores, que no início de 2026 se refletiram de maneira contundente em campo. A derrota em casa por 1 a 0 para o Velo Clube, na última quarta-feira, serviu de palco para o desabafo do meia Elvis, que não poupou críticas à diretoria.
O jogador expressou sua frustração com a situação atual, declarando: "Vergonha o que está acontecendo (...). A gente está sofrendo por causa de uma desorganização do clube." Elvis enfatizou a necessidade de cobranças direcionadas, acrescentando: "Tem que cobrar a gente, os mais experientes, mas também a diretoria. Chega. Ano passado foi tudo errado, e a gente foi campeão. Não é assim que se faz futebol." Em um tom de desapontamento, ele concluiu: "A Ponte não merece isso, e a gente muito menos (...). Ano passado a gente passou por situações surreais no futebol (...). Não existe o que a gente está passando (...). Ninguém merece passar por isso."
O Início dos Sinais de Instabilidade
Os primeiros indícios de turbulência surgiram entre maio e junho de 2025, em meio à disputa da Série C. Notícias sobre atrasos salariais para atletas e funcionários do futebol começaram a circular. Naquela ocasião, sob a presidência de Marco Antonio Eberlin, a diretoria minimizou o problema, atribuindo os atrasos a bloqueios judiciais em contas do clube. Mesmo com pagamentos parciais efetuados no início de julho, a situação permaneceu instável, com promessas de regularização que se arrastavam semana após semana, enquanto o desempenho da equipe oscilava.
Julho de 2025 foi um mês crucial para o agravamento da situação. O clube recebeu seu primeiro transfer ban, decorrente do não cumprimento de acordos firmados com a Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD). Essa sanção impôs severas limitações ao planejamento esportivo e revelou a profundidade dos problemas financeiros, que eram mais sérios do que o inicialmente informado. Apesar disso, a equipe manteve um nível competitivo, com o então técnico Alberto Valentim elogiando a dedicação dos jogadores, enquanto o desgaste interno com os salários atrasados aumentava.
Protestos, Saídas e Mudanças no Comando Técnico
Em agosto, com a classificação para o quadrangular final da Série C praticamente assegurada, o elenco adotou uma postura mais assertiva. Houve paralisações pontuais nos treinamentos como forma de protesto. Em seguida, atletas como Maguinho e Jean Dias solicitaram a liberação do clube antes mesmo da fase decisiva. O desgaste culminou na saída de Alberto Valentim, que aceitou uma proposta do América-MG. A diretoria optou por Marcelo Fernandes para substituí-lo, com a tarefa de gerenciar o vestiário em meio à instabilidade financeira e conduzir o time ao acesso.
Mesmo sem solucionar as pendências financeiras, a Ponte Preta avançou no quadrangular final sem a possibilidade de reforços, devido ao transfer ban. Em campo, a equipe respondeu positivamente, conquistando vitórias importantes, o acesso e, posteriormente, o título da Série C. A conquista veio em meio a relatos de mais de 100 dias de salários atrasados, com discursos de união e resiliência dos jogadores. Dias após a festa, porém, as cobranças formais se intensificaram.
O Caos do Réveillon e a Transição para 2026
O encerramento de 2025 foi marcado por uma série de ações judiciais. Jogadores do elenco campeão buscaram a Justiça para reaver salários, com reconhecimentos de rescisões indiretas, como nos casos do zagueiro Wanderson e do atacante Everton Brito. Às vésperas das eleições presidenciais, o então presidente Eberlin chegou a classificar o clube como estando na "UTI". A mudança de gestão, com a eleição de Luiz Torrano em dezembro, não foi suficiente para frear a escalada da instabilidade.
A transição para 2026 foi particularmente conturbada. A reapresentação do elenco foi adiada, houve anúncio de corte de 30% nos gastos e, com a persistência dos atrasos, os jogadores decidiram paralisar a pré-temporada às vésperas do Natal. Em nota oficial, o elenco informou que os débitos acumulados chegavam a sete meses em alguns casos. Mesmo com o retorno aos treinos em janeiro, o cenário permaneceu desfavorável, com o transfer ban em vigor, impedindo a inscrição de reforços e levando a novas saídas de atletas.
| Órgão | Período de Vigência | Valor Aproximado | Motivo |
|---|---|---|---|
| CNRD | Desde Julho de 2025 | R$ 2,2 milhões | Parcelas em atraso de acordo de dívidas |
| FIFA | Desde Setembro de 2025 | Aprox. 110 mil dólares (R$ 592 mil) | Dívida envolvendo mecanismo de solidariedade |
Paulistão com Elenco Reduzido e Desafios Constantes
Impedida de registrar novas contratações, a Ponte Preta estreou no Campeonato Paulista com um elenco limitado, composto majoritariamente por remanescentes da Série C e jovens da base. A derrota para o Corinthians foi acompanhada por desabafos públicos e alertas do técnico Marcelo Fernandes sobre o risco esportivo da situação. Subsequentemente, novas baixas ocorreram, incluindo jogadores que ainda não haviam sequer estreado, forçando o clube a recorrer novamente às categorias de base, uma solução emergencial que se tornava recorrente.
Com o clube impossibilitado de regularizar novos atletas, Marcelo Fernandes segue sem poder contar com diversos jogadores importantes, entre eles o goleiro Thiago Coelho; o lateral-direito Lucas Justen; os zagueiros David Braz, Lucas Cunha e Walisson Maia; o volante Tárik; o meia Cristiano; e os atacantes Herbert e Vitor Pernambucano. Outros atletas chegaram a se apresentar e treinar, mas deixaram o clube em meio às incertezas. A base, por sua vez, também enfrenta atrasos salariais, com débitos que chegam a oito meses para jogadores e funcionários. Não obstante, a equipe juvenil conseguiu avançar à terceira fase da Copinha.
A derrota para o Velo Clube, em Campinas, representou o ápice da insatisfação. Após a partida, o meia Elvis proferiu um desabafo contundente, direcionando cobranças à diretoria, mencionando promessas não cumpridas e alertando para o risco iminente de rebaixamento. O técnico Marcelo Fernandes, por sua vez, reconheceu o esgotamento emocional de atletas e funcionários diante da persistente instabilidade. O zagueiro Saimon, em declarações à Rádio Jovem Pan, de Campinas, revelou a gravidade da situação, afirmando: "A gente vem se agarrando ao nosso brio, à nossa dedicação diária, a atitude de cada um. E não é de hoje. Não tem mais o que a gente fazer. Fizemos o máximo, mas a cada jogo que a gente joga é mais prejuízo para nós mesmos. Não vou citar nome, mas tem jogador sem conseguir treinar por estar machucado tendo que jogar machucado por não ter suplentes. É uma pena ter que ver jogador se arrastando, jogando machucado por não ter outra opção."
Um Legado de Dificuldades Financeiras e de Gestão
A atual conjuntura da Ponte Preta não é fruto de um evento isolado, mas de uma acumulação de desequilíbrios ao longo dos anos, exacerbados pela escassez de recursos, judicializações e equívocos na administração. Em entrevista concedida em setembro de 2025, a advogada Talita Garcez estimou a dívida global do clube em torno de R$ 450 milhões. O que se iniciou como atrasos pontuais evoluiu para uma bola de neve, impactando diretamente o projeto esportivo, a formação de novos talentos e o funcionamento cotidiano da instituição. Na última quarta-feira, funcionárias da cozinha chegaram a paralisar suas atividades devido à falta de pagamento.
Com o Campeonato Paulista em andamento e a pressão aumentando a cada rodada, a Ponte Preta se encontra diante de um dilema crucial: agir com celeridade para estancar a crise ou arriscar transformar um ano que começou com expectativas em mais um capítulo doloroso de sua história recente. Até o momento, são duas derrotas em duas partidas disputadas, com placares de 3 a 0 contra o Corinthians e 1 a 0 diante do Velo Clube. Sem somar pontos e sem marcar gols, a Macaca amarga a lanterna da competição, com os dois últimos colocados sendo rebaixados após apenas oito rodadas na fase inicial. O próximo desafio da equipe está agendado para sábado, às 18h30, contra o Capivariano, fora de casa.
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